Imprensa

Otis apresenta projecto MozamVerde

06 de Janeiro de 2010, 13:46

foto Otis

O saxofonista moçambicano Alípio Cruz, ou simplesmente Otis como é conhecido na área da música, apresentou esta terça-feira o seu novo projecto musical à comunicação social, uma iniciativa que vai culminar com o lançamento de um novo disco que ostentará o título de “MozamVerde”.

Trata-se de uma iniciativa em que moçambicano radicado em Portugal está a desenvolver em parceria com o músico cabo verdiano Tito Paris. “Daí que a designação deste disco que terá 11 faixas ser MozamVerde, um trocadilho com o nome dos dois países”, explicou Otis.

Segundo o saxofonista, este disco que será o sétimo na sua conta pessoal será lançado em Março de 2010 e tem como horizonte a realização do Mundial 2010 em Junho na África do Sul. “Fui influenciado por várias pessoas para desenhar um projecto musical que tivesse como foco o Mundial de futebol que vai ter lugar próximo de Moçambique, daí que me associe ao Tito Paris, para promover o que muitos não conhecem destes dois países africanos”, referiu.

foto Otis

Ainda sobre o disco a ser masterizado em Nova Iorque nos Estados Unidos da América, Otis disse que o mesmo contará com a colaboração de vários músicos convidados, alguns dos quais intepretaram o tema “Sons da Distância”, estando incluídos músicas cantadas em Bitonga (língua falada em Inhambane), como é o caso de “Uwé Muanéé”.

Otis é um dos convidados da Federação portuguesa de Futebol para integrar a comitiva que acompanhará a selecção das Quinas para o Mundial que terá lugar na terra do Rand, bem como recebeu o convite do Ministério do Turismo de Moçambique para promover a imagem do nosso país ao longo da prova a decorrer em Junho.

Alfredo Lituri

SAPO MZ

Entrevista à Revista Autores

Otis é um dos poucos artistas moçambicanos que escolheram Portugal para seguir uma carreira musical. Filho de um maestro, cresceu ao som de vários estilos musicais e, actualmente, é considerado por muitos como o melhor saxofonista a residir e a actuar em Portugal. Discípulo de Dollar Brand (Abdullah Ibrahim), com quem já tocou, Otis acabou de lançar o seu quinto trabalho discográfico a solo, "Olhando para trás". Um disco tranquilo, onde o autor recorda todas as influências que fizeram dele um músico de excepção.

foto Otis

Autores - Não é comum encontrar artistas moçambicanos em Portugal, contam-se quase pelos dedos de uma mão os que vieram para cá. Preferiram fica em Moçambique ou foram para outras paragens?

Otis - Em Moçambique, talvez pela influência sul-africana, os nossos músicos que saem do país vão, em primeiro lugar, para a África do Sul, uma terra de excepção. E dali saímos para o Zimbabué, a Tanzânia e outros países. Mas não é fácil triunfar na África do Sul: eles "defendem-se" bem, são proteccionistas, é preciso ser muito bom para vencer na África do Sul. E, por mim, acho que o esforço para penetrar no mercado sul-africano não compensa. Aquele país é um mundo, tem de tudo, é uma potência. Tem de ser muito bom para eles nos deixarem entrar, senão é mais um que por lá anda. Para mim não compensa. Não é que tenha medo da competição, mas prefiro estar em Portugal.

Autores - Quando se fala em Moçambique, a nível musical, lembramo-nos logo da marrabenta. Mas o Otis é um músico moçambicano que toca saxofone. De onde vem essa paixão?

Otis - Eu nem gostava de saxofone, foi o meu pai que me obrigou. Ele era maestro de uma banda, em Inhambane, e hoje agradeço-lhe ter-me influenciado. Quanto à marrabenta, é a nossa música popular enão a esqueço. No meu primeiro disco misturei marrabenta em alguns dos meus temas, mas essa experiência não foi bem sucedida. Só funcionou nos discos seguinres, e já editei cinco. No último disco, pode-se ouvir muita marrabenta.

Autores - Como músico instrumentista é fácil arranjar espectáculos, ter trabalho?

Otis - Estive dez anos para conseguir entrar no mercado português, não foi fácil. E trabalhei com gente importante, trabalhei no Fontória, e foi a partir daí que começaram a abrir-se-me as portas desse mercado. O Roberto Leal viu-me uma vez na televisão, contactou-me, e comecei a trabalhar com ele. Foi uma experiência extraordinária, tenho excelentes recordações, fizemos tournées por todo o mundo. Além disso também toquei com o duo Miguel e André, com Paulo de Carvalho, o Eduardo Paim, o Paulo Flores, entre muitos outros - e peço desculpa aos que me esqueço de citar. Estes músicos ajudaram-me muito, integrei-me melhor na sociedade e na música portuguesa. E ganhei experiência, posso tocar vários estilos musicais. O mercado português é pequeno, para podermos viver e ter trabalho temos que noa adapter. Tocar um único género musical em Portugal não dá, não sobrevivemos.

Autores - Essa experiência contribuiu para a fusão que actualmente faz na sua música?

Otis - Nem mais. Ter tido a oportunidade de tocar com músicos de várias áreas e em vários lugares do mundo fizeram de mim um músico polivalente. Com o meu sax consigo tocar um pouco de tudo, desde marrabenta, kizomba, fado, Rn'B. Até música chinesa...

Autores - Essa mistura de influências nota-se nos discos que gravou até agora?

Otis - Sim. Até agora gravei cinco discos, e o mais curioso é que consigo vender mais no estrangeiro do que em Portugal. O mercado português é pequeno e as pessoas não estão habituadas à música instrumental. Dou um exemplo: o disco "Influências" que gravei em 1999, vendeu mais nos Estados Unidos do que cá. Claro que nos Estados Unidos o mercado é potencialmente forte e muito maior, mas na verdade é que eu nos Estados Unidos não sou conhecido como sou aqui.

Autores - Já consegue viver só a fazer música?

Otis - Agora sim. tive uma latura que era complicado, mas felizmente agora tenho muito trabalho. Não faço só concertos, sou chamado para animar eventos, lançamentos de marcas, inaugurações de lojas, resstaurantes...Trabalho de Segunda a Domingo.